• Juntos podemos mudar!

    A consciência humana e cristã não pode ficar indiferente ou passiva diante do vergonhoso escândalo...

  • De Pinheirinho (SP) a Barreiro (MG): a tendência é piorar

    Quando da bomba que caiu sobre Pinheirinho, vitimando inúmeras famílias, e destruindo pela força da violência...

  • Fraternidade e Saúde

    Estamos diante da Campanha da Fraternidade 2012 que vem com o tema Fraternidade e Saúde Pública, e o lema...

  • Nossos Mártires

    São incontáveis os Mártires da Caminhada que nossa Igreja recorda com carinho para alimentar seu compromisso expresso...

  • A caminho do 13º Intereclesial

    Além do local previamente definido para a realização do 13º Intereclesial das CEBs que, desta vez será em Juazeiro do Norte...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Desobedecer, caminho espiritual

Marcelo Barros*
Adital

É surpreendente dizer que a desobediência pode ser uma atitude espiritual profunda porque comumente as religiões e autoridades sempre insistiram na virtude da obediência. É verdade que quando, no final da guerra, ex-oficiais alemães afirmaram que tinham cometido genocídios por obediência, a sociedade internacional declarou que eles deveriam ter desobedecido a ordens injustas e assassinas. Atualmente, em Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório se negam a combater palestinos. Nos Estados Unidos, negros e índios se negam a ir fazer guerra em outros países do mundo. Essas pessoas e grupos religiosos ou não que se negam a pegar em armas invocam um direito individual, assegurado pela ONU: o direito de objeção de consciência. Em vários países, a objeção de consciência é direito civil, reconhecido por lei. No Brasil, a Constituição garante aos jovens brasileiros o direito de fazer um serviço civil no lugar da prestação ao serviço militar obrigatório. Entretanto, as leis complementares ainda não foram sancionadas. Por isso, esse direito ainda não pode ser plenamente exercido e poucos brasileiros têm consciência de que têm essa liberdade de consciência. Nesses dias, a objeção de consciência leva muitos brasileiros a protestar contra a construção da Usina Belo Monte no Pará e também a exigir que a presidente vete em sua totalidade a proposta do novo Código Florestal que o legislativo aprovou. O que caracteriza a atitude de objeção de consciência é que ela é uma postura profética e de discordância motivada por motivos religiosos, culturais ou políticos.

A ONU propõe que se consagre o dia 15 de maio e toda essa semana para aprofundar o direito da objeção de consciência e divulgar essa atitude pacifista. Só se reconhece a dignidade humana onde a consciência individual e a fé de cada grupo forem respeitadas.

A espiritualidade ecumênica valoriza a obediência, mas a compreende como abertura pessoal e livre que leva as pessoas a escutar interiormente e acolher positivamente a palavra e as propostas de outro. Essa obediência deve ser adulta e responsável. É baseada na liberdade do coração. Realiza-se através do diálogo franco e aberto. Se for assim, a obediência não infantiliza, nem constrange. Ao contrário, conduz a pessoa a superar seus limites e a aventurar-se nos caminhos do amor. Essa forma de obedecer é crítica e amorosa. Propõe a colaboração mútua no lugar da competição e contém um elemento subversivo à mesquinhez do mundo.

A ciência e a arte de viver têm progredido mais por conta das pessoas que ousam desafiar as leis e inovar os costumes do que pela ação das que simplesmente seguem caminhos convencionais. A objeção de consciência é a atitude de quem, por convicção religiosa, social ou política, se nega a pegar em armas e a participar de guerras ou atos violentos.

Homens e mulheres, admirados no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, foram ou ainda são, em seus países, considerados como rebeldes e desobedientes. Para os católicos, muitos mártires são testemunhas da fé. Foram condenados à morte por se negar a reconhecer o imperador como divino; Outros, por objeção de consciência ao serviço militar. Do ponto de vista da fé, são santos, mas a sociedade da época os condenou como desrespeitadores das leis e até criminosos.

Todas as pessoas têm direito e dever de opor-se determinadamente a cumprir uma lei que fere a consciência individual e comunitária. A violência, mesmo se é institucional, nunca será capaz de construir um mundo de paz e justiça.

Em alguns países, as pessoas exigem o direito de saber a destinação exata do pagamento de seus impostos. Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com maior razão ainda, religiões e Igrejas deveriam reconhecer o direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário ou, por qualquer razão, injusto. Conforme a Bíblia, quando as autoridades de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar no nome de Jesus, estes responderam: "Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus”(At 5, 29).

O que, na Bíblia, caracteriza a fé cristã é o aprendizado da liberdade interior e social. Paulo escreveu aos gálatas: "Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5, 1. 13).

*Monge beneditino e escritor, é autor de 44 livros, entre os quais "A Festa do Pastor", romance sobre o Pentecostalismo. Ed. Rede-Goiás.

6º Intereclesial das CEBs do Paraná

Pe. Vileci Basílio Vidal

O 6º intereclesial das CEBs do Paraná, acontecido em Jacarezinho nos dias 28, 29 e 30 de abril, contou com a presença de mais de 600 pessoas sob a coordenação de Pe. Agostinho, Lorena, Pe Oswaldo e outros.

Lá estiveram presentes alguns bispos e a presença integral de Dom Getúlio Teixeira Guimarães, bispo referencial das CEBs e presidente nacional da CPT. 

Todo o encontro teve como enfoque os 50 anos do Concílio Vaticano II, sendo que em quatro mine-plenária se discutiu Medellin, Puebla, Santo Domingo e Aparecida. 

A temática do encontro foi "Justiça e profecia a serviço do Reino" e o lema "CEBs romeiras do Reino no campo e na cidade". 

Na parte do ver, destacou-se o caminhar das CEBs nos trilhos da religiosidade popular e a opção preferencial pelos pobres no contexto atual. A parte do julgar teve-se um olhar pastoral para as comunidades a partir da Doutrina Social da Igreja e o texto de 1Cor 14, 1-25 em que São Paulo recomenda vivamente a profecia para a comunidade. Quanto ao agir ficou como desafio para ser trabalhado como urgênca das CEBs do Paraná: ser uma Igreja missionária que saiba escutar os clamores dos pobres a partir de uma prática profética; organizar-se em rede de comunidades nas paróquias e dioceses procurando dar uma atenção especial para a formação baseada em uma educação popular; e enfrentamento ao agronegócio na defeza de um desenvolvimento sustentável onde a agricultura familiar e orgânica seja uma expressão que faça a diferença e garanta a soberania alimentar no Estado. 

As famílias de Jacarezinho acolheram os delegados do encontro e na noite do domingo houve celebração nas paróquias e uma confraternização. O encontro encerrou-se com a mensagem de que somos todos romeiros e romeiras na estrada da vida e Jesus convida todas as CEBs a viver a espiritualidade do peregrino em meio aos desafios da vida, fazendo da romaria uma missão. 

Pe. Vileci Basílio Vidal da Diocese de Crato, no Ceará foi o assessor geral do 6º Intereclesial, sendo que Lenir, Pe. Jaime, Renato, Pe. Agostinho, João Santiago, Pe. Sidnei, Frei Ildo e Mara contribuíram na assessoria nas mine-plenárias. 

Dom Getúlio presidiu a missa de encerramento concelebrada por um número significativo de padres e diáconos permanentes. A juventude foi uma expressão viva no 6º intereclesial e lá reivindicava seu espaço junto as CEBs. Deus seja louvado por tudo isso!

Regionais preparam 13º Intereclesial

Em visita a Paróquia São Vicente Ferrer, o Secretariado de CEBs, representado por Pe. Vileci e José Batista, realizou formação para as lideranças das Comunidades da zona rural. O objetivo é preparar as comunidades para vivenciar a proposta de formação da Rede de Comunidades, experiencia da qual a Paróquia já tem uma vivência prática. 

A Paróquia São Vicente Ferrer esta localizada na cidade de Lavras da Mangabeira, Diocese de Crato, CE, e completará 200 anos em 2013.


Confira abaixo outros encontros:

Coordenação de CEBs do Regional Nordeste I - Ceará, realizado na cidade de Mombaça - centro sul do CE, Diocese de Iguatu.




É preciso ouvir o clamor do povo nordestino
Entrevistando Ana Maria - 6º Nordestão

sábado, 12 de maio de 2012

Assim como meu Pai me ama, eu amo vocês - Jo 15,9-17

Carlos Mesters, Mercedes Lopes e Francisco Orofino
CEBI

Os capítulos 15 até 17 de João trazem vários ensinamentos muito bonitos, fruto da catequese nas comunidades do Discípulo Amado. O evangelista os juntou e colocou aqui no ambiente amigo do último encontro de confraternização de Jesus com os discípulos. Acompanhe.  

João 15,9-11: Permanecer no amor, fonte da perfeita alegria

Jesus permanece no amor do Pai observando os mandamentos que dele recebeu. Nós permanecemos no amor de Jesus observando os mandamentos que ele nos deixou. E devemos observá-los com a mesma medida com que ele observou os mandamentos do Pai: "Se vocês obedecem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor". É nesta união de amor do Pai e de Jesus que está a fonte da verdadeira alegria: "Eu disse isso a vocês para que minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês seja completa".

João 15,12-13: Amar os irmãos como ele nos amou.

O mandamento de Jesus é um só: "amar-nos uns aos outros como ele nos amou!" (Jo 15,12). Jesus ultrapassa o Antigo Testamento. O critério antigo era: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 18,19). O novo critério é: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei". Aqui ele disse aquela frase que cantamos até hoje: "Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!"

João 15,14-15 Amigos e não empregados

"Vocês serão meus amigos se praticarem o que eu mando", a saber, a prática do amor até a doação total de si! Em seguida, Jesus coloca um ideal altíssimo para a vida dos discípulos e das discípulas. Ele diz: "Não chamo vocês de empregados, mas de amigos. Pois o empregado não sabe o que faz o seu patrão. Chamo vocês de amigos, porque tudo que ouvi do meu Pai contei para vocês!" Jesus não tinha mais segredos para os seus discípulos e suas discípulas. Tudo que ouviu do Pai contou para nós! Este é o ideal bonito da vida em comunidade: chegarmos à total transparência, ao ponto de não haver mais segredos entre nós e de podermos confiar totalmente um no outro, de podermos partilhar a experiência que temos de Deus e da vida e, assim, enriquecer-nos mutuamente. Os primeiros cristãos conseguiram realizar este ideal durante alguns anos. Eles "eram um só coração e uma só alma" (At 4,32; 1,14; 2,42.46).

João 15,16-17: Foi Jesus que nos escolheu

Não fomos nós que escolhemos Jesus. Foi ele que nos encontrou, nos chamou e nos deu a missão de ir e dar fruto, fruto que permaneça. Nós precisamos dele, mas ele também quer precisar de nós e do nosso trabalho para poder continuar fazendo hoje o que fez para o povo na Galiléia. A última recomendação: "Isto vos mando: amai-vos uns aos outros!"

ALARGANDO

Jesus é a sabedoria de Deus

Para as primeiras comunidades, Jesus é a manifestação da multiforme Sabedoria de Deus (Ef 3,10). Ele é a Sabedoria de Deus (1Cor 1,24). Mas esta ligação entre Jesus e a Sabedoria de Deus aparece com maior evidência no Evangelho de João. Desde o Prólogo, podemos perceber como as comunidades do Discípulo Amado gostavam de contemplar Jesus como a Sabedoria que existia em Deus antes da criação do mundo (Jo 1,2-5; Sb 6,22). Como a Sabedoria, somente Jesus conhece os mistérios de Deus e os revela à humanidade (Jo 3,11-12; Sb 9,9-18). Há várias outras características da Sabedoria de Deus, acentuadas no Antigo Testamento, que são usadas no Evangelho de João para dizer quem é Jesus para nós.

> A Sabedoria convida o povo para um banquete (Pr 9,1-6). Ela diz: "Quem me come terá ainda mais fome e quem me bebe terá ainda mais sede" (Eclo 24,21). No Evangelho de João, Jesus diz: "Quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede" (Jo 6,35).
> A Sabedoria é "um reflexo da luz eterna" (Sb 7,26). Jesus diz: "Eu sou a luz do mundo" (Jo 1,5; 8,12; 9,5).
> A Sabedoria diz: "Quem me encontra, encontra a vida" (Pr 8,35). Jesus diz: "Eu sou a ressurreição e a vida!" (Jo 1,4; 11,25; 14,6).
> A Sabedoria é fonte de água (Eclo 24,30-31). Jesus diz: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba!" (Jo 7,37).
> A Divina Sabedoria é uma videira graciosa com muitos ramos, carregada de flores e frutos. Ela convida as pessoas para que venham fartar-se dos seus frutos e experimentar a doçura de seu mel (Eclo 24,17-22). Jesus diz: "Eu sou a videira, vocês são os ramos" (Jo 15,5). Quem fica unido a ele produz muitos frutos (Jo 15,8). Sobre a Sabedoria no Evangelho de João, veja Alargando no 1º Círculo deste Livro.

O amor incondicional: para o dia das mães

Leonardo Boff*

O dia das mães é a festa do amor incondicional. Elas nos deram a vida, nos acolheram e nos colocaram em seu coração. E de lá nunca mais saímos. Quando desanimados, procuramos o seu seio. Quando rejeitados, sabemos onde encontrar abrigo. No meio do perigo é a palavra “mãe” que pronunciamos. E quando nos despedimos desta vida  é ainda o nome “mãe” que nos vem aos lábios. Ela nos introduzirá no grande Útero da Mãe eterna, de infinita bondade e ternura.

Neste dia das mães não fala a inteligência analítica e funcional mas a inteligência emocional e razão cordial. Logico, o comércio explora esse dia, mas o significado da figura da mãe é tão poderoso que não se deixa nunca desvirtuar totalmente.

É excusado sublinhar a importância da figura da  mãe na orientação futura da vida de uma criança. Baste-nos  referir as constribuições inestimáveis de Jean Piaget com sua psicologia e pedagogia evolutiva e principalmente as de Donald W. Winnicot com sua pediatria combinada com psicanálise infantil. Eles nos detalharam os complexos percursos da psiqué infantil nesses momentos iniciais e seminais da vida que nos conferem o sentimento de sermos amados, protegidos e sempre acolhidos.

Hoje não cabe esse tipo de reflexão por mais importante que seja. Tem seu lugar o afeto cujas raizes se encontram há mais de duzentos milhões de anos, quando surigiram no processo da evolução os mamíferos dos quais nós descendemos. Com eles nos veio  o afeto, o amor e o cuidado, guardados como informações até os dias atuais pelo cérebro límbico. Entreguemo-nos brevemente à terna força deste afeto.

Há muitos textos comovedores que exaltam a figura da mãe como o belíssimo do bispo chileno Ramon Jara. Mas há um outro de grande beleza e verdade que nos vem da Africa,  de uma nobre abissínia, recolhido como prefácio ao livro Introdução à essência da mitologia (1941), escrito por dois grandes mestres na área, Charles Kerény e C. G. Jung. Assim fala uma mulher em nome de todas as mulheres e mães.

“Como pode saber um homem o que é uma mulher? A vida da mulher é inteiremante diferente daquela dos homens. Deus a fez assim. O homem fica o mesmo, do tempo de sua circuncisão até o seu declínio. Ele é o mesmo antes e depois de ter encontrado, pela primeira vez, uma mulher. O dia, porém, em que a mulher conheceu seu primeiro amor, sua vida se divide em duas partes. Neste dia ela se torna outra. Antes do primeiro amor, o homem é igual ao que era antes. A mulher, a partir do dia de seu primeiro amor, é outra. E assim permanecerá por toda a vida toda”.

“O homem passa uma noite com uma mulher e depois vai embora. Sua vida e seu corpo são sempre os mesmos. A mulher, porém, concebe. Como mãe, ela é diferente da mulher que não é mãe. Pois, ela carrega em seu corpo, por nove meses, as consequências de uma noite. Algo cresce dentro dela, que jamais desaparecerá. Pois ela é mãe. E permanecerá mãe, mesmo quando a criança ou todas as crianças tiverem morrido. Pois ela carregou a criança em seu coração. Mesmo depois que ela nasceu, continua a carregá-la em seu coração. E de seu coração não jamais sairá. Mesmo que a criança não viva mais”.

“Tudo isso o homem não conhece. Ele não sabe nada disso. Ele não conhece a diferença entre o “antes do amor” e o “depois do amor”, entre antes da maternidade e depois da maternidade. Ele não pode conhecer. Só uma mulher pode saber e falar sobre isso. É por isso que nós, mães, nunca nos deixamos persuadir por nossos maridos. A mulher pode somente uma coisa: ela pode cuidar dela mesma; ela pode se conservar decentemente; ela deve ser o que a sua natureza é; ela deve ser sempre menina e  mãe. Antes de cada amor é  menina. Depois de cada amor é mãe. Nissso poderás saber se ela é uma boa mulher e mãe  ou não”.

Sem dúvida, trata-se se uma visão sublimada da mulher e da mãe. Pois nelas há também sombras que acompanham sempre a condição humana, também feminina.

Mas no dia de hoje, queremos esquecer as sombras para apenas focalizarmos o momento de luz que toda mãe representa. Por isso tantos se movem nesta data: viajam até para longe para ver sua “mãezinha querida”, para dar-lhe um abraço filial e cobri-la de beijos.

Elas merecem. Pois não estaríamos aqui se elas não tivessem tido o infinito cuidado de nos acolher na vida e de nos encaminhar pelos misteriosos caminhos da existência. A elas, nossas mães, o nosso afeto, o nosso carinho e o nosso amor: às vivas e aquelas que estão para além da vida.

*Autor do livro em parceria com Rose-Marie Muraro Feminino e Masculino. Uma nova consciência pra o encontro das diferenças (Sextante) 2002.

Lamento dos Afro-descendentes: treze de Maio

Leonardo Boff*

Hoje, 13 de maio, é o dia das mães. Mas não esqueçamos a mães negras, especialmente as “amas-de-leite”, as mucamas. Quantas crianças brancas não foram por elas  amamentadas e salvas?

Agora, finalmente a Justiça fez justiça aos afrodescentendes, pagando uma dívida histórica que pesava em nossa consciência branca coletiva. Foram-lhes concedidas as cotas de acesso às universidades federais. Mas a nossa dívida começou apenas a ser paga. Há tantas reparações e compensações ainda por fazer.

Enquanto isso  a Paixão de Cristo continua pelos tempos afora no corpo destes crucificados. Jesus agonizará até o fim do mundo, enquanto houver um único destes seus irmãos e irmãs que estejam ainda pendendo de alguma cruz.

Assim pensa também o budismo tibetano. O  bodhisattwa (o iluminado) pára no umbral do Nirvana e suplica retornar ao mundo da dor – samsara – para viver solidariamente  com quem sofre no reino humano, animal e vegetal. Nesta mesma convicção, a Igreja Católica, na liturgia da Sexta-feira Santa, coloca na boca do Cristo estas palavras pungentes:

”Que te fiz, meu povo eleito? Dize em que te contristei! Que mais podia ter feito, em que foi que te faltei? Eu te fiz sair do Egito e com maná de alimentei. Preparei-te bela terrra, e tu, a cruz para o teu rei”.

Rememorando a abolição da escravatura a 13 de maio, nos damos conta de que ela não foi completada ainda. A paixão de Cristo continua na paixão do povo afrodescendente. Falta a segunda abolição, da miséria e da fome, como postula o senador Cristovam Buarque. Ouvem-se ainda os ecos dos lamentos de cativeiro e de libertação, vindos das senzalas, hoje das favelas ao redor de nossas cidades:

“Meu irmão branco,  minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te inspirei a música carregada de banzo e o ritmo contagiante. Eu te ensinei como usar o bumbo, a cuíca e o atabaque. Fui eu que te dei o rock e a ginga do samba. E tu tomaste do que era meu, fizeste nome e renome, acumulaste dinheiro com tuas composições e nada me devolveste.

Eu desci os morros, te mostrei um mundo de sonhos, de uma fraternidade sem barreiras. Eu criei mil fantasias multicores e te preparei a maior festa do mundo: dancei o carnaval para ti. E tu te alegraste e me aplaudiste de pé. Mas logo, logo, me esqueceste, reenviando-me ao morro, à favela, à realidade nua e crua do desemprego, da fome e da opressão.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu te dei em herança o prato do dia-a-dia, o feijão e o arroz. Dos restos que recebia, fiz a feijoada, o vatapá, o efó e o acarajé: a cozinha típica da Bahia. E tu me deixas passar fome. E permites que minhas crianças morram famintas ou que seus cérebros sejam irremediavelmente afetados, infantilizando-as para sempre.

Eu fui arrancado violentamente de minha pátria africana. Conheci o navio-fantasma dos negreiros. Fui feito coisa, “peça”, escravo. Fui a mãe-preta para teus filhos e filhas. Cultivei os campos, plantei o fumo para o cigarro e a cana para o açúcar. Fiz todos os trabalhos. E tu me chamas de preguiçoso e me prendes por vadiagem. Por causa da cor da minha pele me discriminas e me tratas ainda como se continuasse escravo.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Eu soube resistir, consegui fugir e fundar quilombos: sociedades fraternais, sem escravos, de gente pobre mas livre, negros, mestiços e brancos. Eu transmiti, apesar do açoite em minhas costas, a cordialidade e a doçura à alma brasileira. E tu me caçaste como bicho, arrasaste meus quilombos e ainda hoje impedes que a abolição da miséria que escraviza, continue como realidade cotidiana e efetiva.

Eu te mostrei o que significa ser templo vivo de Deus. E, por isso, como sentir Deus no corpo cheio de axé e celebrá-lo no ritmo, na dança e nas comidas sagradas. E tu reprimiste minhas religiões chamando-as de ritos afro-brasileiros ou de simples folclore. Não raro, fizeste da macumba caso de polícia.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!

Quando com muito esforço e sacrifício consegui ascender um pouco na vida, ganhando um salário suado, comprando minha casinha, educando meus filhos e filhas, cantando o meu samba, torcendo pelo meu time de estimação e podendo tomar no fim de semana uma cervejinha com os amigos, tu dizes que sou um negro de alma branca, diminuindo assim o valor de nossa alma de negros, dignos e trabalhadores. E nos concursos em igual condição quase sempre tu me preteres em favor de um branco. Porque sou negro.

E quando se pensaram políticas públicas para reparar a perversidade histórica, permitindo-me o que sempre me negaste, estudar e me formar nas universidades e assim melhorar minha vida e de minha família, a maioria dos teus grita: é contra a constituição, é uma discriminação, é uma injustiça social. Mas finalmente a Justiça agora nos fez justiça e nos abriu as portas das universidades federais.

Meu irmão branco, minha irmã branca, meu povo: Que te fiz eu e em que te contristei? Responde-me!”

“Responde-me, por favor”.

E nós brancos, os que dispomos do ter, do saber e do poder, geralmente calamos, envergonhados e cabisbaixos. É hora de escutar o lamento destes nossos irmãos e irmãs afro-descendentes, somar forças com eles e construir juntos uma sociedade inclusiva, pluralista, mestiça, fraterna, cordial onde nunca mais haverá, como ainda continua havendo no campo, pessoas que se atrevem a escravizar outras pessoas.

Oxalá possamos gritar: “escravidão nunca mais”. E enxugando as lágrimas podemos dizer como no Apocalipse:”Tudo isso passou”.

*Filósofo, teólogo, escritor

Mães, mas sobretudo mulheres

Pastora Odja Barros*

Esta é uma semana na qual a imagem da mãe é muita louvada, reverenciada e poetizada. Quantas poesias e imagens tentam retratar e expressar o valor dessa imagem feminina de mãe como um ser quase divino. É verdade que há algo de divino na maternidade. O poder de gerar vida, amor uterino, amor que vem das entranhas, do útero é de onde se origina a palavra MISERICORDIA, que significa o amor que vem das entranhas, do útero, o amor de Deus.

Mas, essa imagem "divinizada" da mãe pode também ocultar toda a mulher que existe na mãe. Somos mães, mas, sobretudo mulheres, com todas as nossas potencialidades de amor, cuidado e doação, mas também com nossos desejos, limites, fragilidades e incapacidades como todo ser humano real. Não são poucas as mulheres que se anularam completamente num ato quase "crístico" de sacrificar-se por seus maridos e filhos, esquecendo de si mesmas. Não podemos esquecer as palavras de Jesus quando nos ensina que: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo"(Mc 12:33). Isso significa que não podemos amar ao outro perfeita e saudavelmente se não amarmos a nós mesmas. Esse amor poder ser adoecedor para quem dá e para quem recebe.

De outra parte também temos mulheres impedidas biologicamente de gerar filhos/as ou ainda mulheres que decidiram que não querem ou não se sentem prontas para serem mães e por isso sofrem. Sofrem por se sentirem menos mulher ou pela pressão social que quer arbitrar sobre os seus corpos como se fosse coisa pública onde todos podem opinar. Segundo Simone de Beauvoir "o corpo da mulher é um dos elementos essenciais da situação que ela ocupa neste mundo. Mas, não é ele tão pouco que basta para defini-la." [1] portanto o definir-se mulher ou mãe está para além das funções biológicas do corpo. A maternidade não pode ser reduzida a um útero engravidado.

A maternidade pode ser vivenciada e expandida para todo corpo que acolhe e torna-se casa, abrigo, seio que ampara, cuida, integra assumindo a plenitude da experiência maternal.  Todo corpo pode ser um útero pronto para acolher e cuidar da vida. Mas, o estereótipo da grande mãe, da mãe-virgem do Salvador ou das palavras atribuídas a Paulo que dizem que "a mulher que será salva dando luz a filhos" continua pairando sobre nossas cabeças como modelos de mulheres salvadoras de si mesma. (I Tim. 2:14)  Talvez seja um bom momento para lembrarmo-nos das mulheres-mães da genealogia de Mateus 1, mulheres que contrariam esse modelo estereotipado. Apesar de estarem de alguma forma relacionada à maternidade, "mas é na contramão de ser mãe que elas se empoderam. O que as salva não é o ventre engravidado, mas o poder de decidir seus estados de gravidez"[2]

Tamar, Raabe, Rute, Bete-Seba, mulheres, mães que entram na genealogia de Jesus escapando dos esquemas e estereótipos da sua época e são lembradas não por sua superioridade ética ou por ser modelo disso ou daquilo, mas pela coragem de agir em favor se si mesmas e de sua comunidade. Também nós, a exemplo dessas mulheres, somos desfiadas a resistir à mitificação e a estereótipos, bem como a termos o direito de dizer neste dia que somos mães (se pudermos ou quisermos), mas, sobretudo somos mulheres.

Da mulher, Odja Barros. 

[1] O Segundo sexo. Simone de Beauvoir; Fatos e Mitos Vol.1 - p.57

[2] Nancy Cardoso. Maria  e as outras > In  Maria entre as mulheres: Cebi e Paulus. São Leopoldo-RS. 2009. p.95

*Pastora da Igreja Batista do Pinheiro em Maceió/AL e ajuda a coordenar a Aliança Batista Brasileira. É integrante da CEBI-AL  e do Conselho Nacional do CEBI. Colaborou nas seguintes publicações: O calor que une nossos corações; Como um só povo: reflexões sobre a unidade da Igreja.