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| A nova crise da teologia do mercado |
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José de Almeida Amaral Jr. *
Não teve jeito. Por mais que os neoliberais se sentissem poderosos nos últimos anos, especialmente aqueles vindos após o fim da Guerra Fria e ampliados pela globalização capitalista - o que lhes deu a sensação de agradável onipotência, onipresença e onisciência levando-os a espalhar aos quatro ventos que a História havia acabado - a teologia do livre mercado voltou a entrar em crise, como acontecia antes dos anos 1930, para o desespero de seus pregadores. Só que desta feita não encontra adversário à altura para aproveitar o momento desfavorável. Diferentemente daquela época onde o socialismo era visto como um perigoso antagonista. Agora, com base na presente realidade, não é pressionado por nenhum processo revolucionário. Em compensação, não vai poder acusar ninguém de sabotagem ou coisas afins. A não ser os seus próprios sacerdotes, os seus gurus, seus gestores, executivos das grandes corporações financeiras e especuladores, por se excederem na sanha de seu ritual sem limites por ampliação de lucros. São obrigados desta maneira a pedir socorro ao até recentemente repugnante Estado para salvar-lhes a pele. Aquele mesmo, acusado como incompetente, corrupto, excessivo, inflacionário. Porém, ainda assim, mais que a aparente ironia e humilhação, não deixam de mostrar o verdadeiro e mesquinho caráter de sua moral: quando se deliciavam no topo da curva, concentravam a riqueza entre poucos VIPs desprezando os perversos efeitos colaterais para a maioria e agora que se vêem desmascarados mais uma vez em sua charlatanice, querem socializar seus prejuízos incalculáveis. A teologia dessa gente é a do ‘venha a nós o vosso reino e aos outros nada’. Ou pior: aos outros empurrem a conta para pagar. Mais uma vez. As crises do capitalismo de livre mercado não são novidades e foram analisadas por diversos autores. Contudo, a euforia nestes recentes tempos parece ter afastado, ter tirado o espaço para uma reflexão mais esclarecedora como pediam os velhos analistas e suas recomendações de muita cautela com essa crença. Obviamente por conta dos poderosos interesses contrários a essa sinalização. A tirania do ‘discurso único’. Durante o processo de revolução industrial registrou-se, por exemplo, depressão entre 1815 e 1847. Com isso, na Inglaterra, primeira potencia industrial, foi constatado no ano de 1848 cerca de 1,5 milhão de indigentes e 2 milhões de pobres em seu território, mantidos por entidades de caridade. E crises se repetiram por lá em 1856, 1866, 1873, 1882, 1890 e 1900. Tudo causada pela constante concentração feita pelos chamados oligopólios. Isto para não falar da eclosão da I Guerra Mundial. Um conflito entre potencias imperialistas que buscavam ampliar seus mercados, bem como da quebra da bolsa de Nova York em 1929, motivada por fatores como uma prosperidade econômica que escondia a fragilidade das suas estruturas, com a população sobrevivendo sob um razoável desemprego e forte concentração de renda onde 5% recebiam 1/3 do rendimento pessoal global. Conseqüentemente, ocorreu uma crise de superprodução ou subconsumo. Os especuladores, que maquiavam a seu favor o cenário, retiraram-se da brincadeira no mercado acionário e largaram o problema para os incautos. A fuga gerou tensão, temor e, claro, o dinheiro sumiu. Provocou uma reação em cadeia que resultou em intensa quebradeira de empresas e bancos porque o crédito secou. Isto ultrapassou as fronteiras do país e como a Europa ainda convalescia dos males da guerra, piorou o contexto. Depressão. E novo conflito bélico. Desde então, a presença do Estado como regulador das atividades do mercado tornou-se marcante mundo afora. Ao findar a II Guerra resultou no ocidente capitalista o que foi denominado ‘anos dourados’. Uma associação do setor público com empresas e sindicatos. Durou até as crises entre as décadas de 1970 e 80 quando a doutrina do liberalismo ressurgiu, ganhou adeptos e voltou a dar as cartas, como simbolicamente representam as eleições de Ronald Reagan e Margareth Thatcher, respectivamente nos EUA e Inglaterra. Vendas de patrimônios públicos e desregulamentações. Flexibilização de leis trabalhistas. Os países deixaram que suas moedas flutuassem livremente, criando por tabela um espaço para os que desejavam apostar nas variações. Com a derrocada do mundo soviético, o capitalismo tornou-se hegemônico no planeta, absorvendo inclusive a China, pós - Mao Tse Tung. E a Terra tornava-se um imenso mercado a ser disputado pela pretensa ‘livre concorrência’. Na prática, objetivos oligopólicos dos grandes impérios das multinacionais. Paralelamente, cada vez mais fortalecido, o setor financeiro obteve contornos jamais vistos com as novas tecnologias da comunicação e o nascimento do ciberespaço. Paulatinamente em enormes proporções ganhos abandonavam o setor produtivo rumo à especulação em ‘real time’ proporcionado pela rede da internet, conectando os diversos mercados instantaneamente, favorecendo o virtual ‘cassino financeiro’ internacional. Um símbolo dessa jogatina é o húngaro George Soros que em 1992 lucrou US$ 1 bi ao apostar na desvalorização da libra esterlina, para infelicidade do banco central inglês que foi incapaz de segurar a queda. Uma festa. Recentemente, durante os anos 1990, entre outros, o Japão chacoalhou a economia ao sofrer uma recessão. Tailândia, em 1997, Rússia em 1998 e Brasil, em 1999 também geraram pânico e precisaram do auxílio de seus bancos centrais. Isto sem contar paralelamente no acúmulo ao raiar do séc. XXI de denuncias de fraudes contábeis em empresas multinacionais aparentemente sólidas e respeitáveis como os escândalos da Enron, WorldCom, Xerox, Tyco Internacional entre outras, que deixava apreensivo o então presidente da Fiesp - Federação das Indústrias de S. Paulo, Horácio Lafer Piva, porque ‘criam um clima de insegurança’. Contudo, desta vez, 2008, não foi possível, como se diz popularmente, continuar a ‘tapar o sol com a peneira’. E os termômetros das bolsas de valores escancaram isso com seu trepidar. O setor imobiliário dos EUA, que passou por um boom, atraiu muito crédito, já que o setor financeiro mostrava recursos disponíveis. A oferta de dinheiro convidou muitos interessados aos empréstimos, que foram tornando-se mais facilitados, embora com juros altos. Estes juros atraíram empresas financeiras que compraram as carteiras de crédito dos bancos que fizeram os empréstimos iniciais. Mais dinheiro circulou sem que os primeiros pagamentos fossem efetivamente quitados. E os interesses nos rendimentos dos juros fizeram as carteiras serem repassadas a outros agentes, gerando uma cadeia de venda de títulos. Então, quando finalmente alguém tentou iniciar o resgate, foi detectada a insolvência do devedor. E o efeito negativo também se deu em cadeia. Relações estas que acabaram por se espalhar pelo mercado internacional, conectado pela grande rede financeira, livre da regulamentação dos Estados nacionais. A podridão do sistema fez a falência dos bancos gerar pânico. Qual será o próximo a quebrar? Questiona-se. Então, subitamente, o crédito faz meia volta e retrocede por todos os lados. Atinge, inclusive, o setor produtivo, que fica com maiores dificuldades de investir na ampliação de plantas, de equipamentos e na contratação de mão de obra porque os juros se elevam. Perde a população, que ainda vê seus bancos centrais e o dinheiro público - que poderia ser investido em educação, saúde, habitação, transporte, cultura, meio-ambiente, segurança e tantos outros itens importantes mais - ser desviado para salvar esses sujeitos de sua própria ganância. Por todos os continentes chegam notícias de derrames de dinheiro para aplacar a fúria do deus mercado. Incluindo sacrifícios de nacionalização de bancos agonizantes. Santa gastança de dinheiro estatal! Durante algum tempo os liberais vão se retrair, castigados pelas circunstâncias críticas. Alguns poucos farão mea culpa. A maioria vai arranjar algum modo de responsabilizar o outro. É sempre mais fácil. Todavia, de qualquer modo, o sistema capitalista acumula cada vez mais uma carga de intensa injustiça, mesmo sob regimes democráticos. E, como já comentado, sem adversários à altura. A esperança é que desta caótica ocasião esteja brotando forças para uma nova proposta sócio-econômica, mais equilibrada, mais participativa, visando o bem estar geral da população e da natureza tão espoliada. A teologia do livre mercado capitalista tem um lado só: é macia para quem está faturando. Para quem ele deu as costas, nem com reza brava há salvação. São Paulo, 2 de outubro de 2008 * Professor universitário em Ciências Sociais. Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação. Colunista do Jornal Cantareira do Jornal Mundo Lusíada Fonte: Adital, www.adital.com.br |
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