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| Conjuntura da Semana - 19 a 25 de novembro de 2008 |
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A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das 'Notícias do Dia' publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as "Notícias" publicadas de 19 a 25 de novembro de 2008. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores - CEPAT - com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Sumário: Crise mundial Desaba criação de emprego com carteira Sociedade ainda não percebeu a dramaticidade da crise A crise e o movimento social América Latina Luz amarela para Chávez Equador não está disposto a pagar dívida 'ilegítima, ilegal e corrupta' Conjuntura da Semana em frases Eis a análise. Desaba criação de emprego com carteira A crise mundial freou o crescimento dos empregos com carteira assinada no país. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mede a criação de vagas com carteira assinada, mostram que em outubro foram criadas 61,4 mil vagas, desempenho bem inferior ao dos meses anteriores. Em setembro, haviam sido criadas 282,8 mil vagas e em outubro do ano passado, 205,2 mil. Trata-se do pior desempenho dos últimos dez anos, pelo menos, para os meses de outubro. Um dia antes de anunciar os resultados do Caged, o clima era de velório na sala do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, em Brasília. Em reunião com seis centrais sindicais, o ambiente foi ficando cada vez mais pesado quando os sindicalistas começaram a informar sobre as demissões e as férias coletivas que já acontecem em empresas de todo o Brasil. Apesar de Lupi reafirmar a previsão de fechar 2008 com mais 2 milhões de vagas formais, é evidente a curva descendente do emprego no país. Os dados sinalizam a precaução que tomou conta do setor industrial diante da crise econômica. Como resultado da parada na indústria, segundo o Caged, quatro setores encerraram o mês com corte efetivo de vagas formais: calçados, o complexo que reúne borracha, fumo e couros, e material de transporte e mecânica. E as demissões devem se acentuar. "As empresas estão reduzindo drasticamente seus quadros funcionais", afirma Guilherme Gantus, do escritório Gantus Advogados especializado no planejamento de demissões. Segundo ele, muitas companhias estão preparando cortes de cerca de 25% em suas folhas de pagamento. Uma de suas clientes, que possui 800 funcionários, prevê demissões na casa das 200 vagas. Uma outra, que oferece mão-de-obra para bancos com serviços como manutenção, limpeza e vigilância, deve cortar até 20%. A demissões devem começar a ocorrer a partir de janeiro, segundo Gantus: "Como a crise estourou perto do final do ano, algumas empresas conseguirão fechar 2008 com seus funcionários e promover as demissões só no início de 2009. Mas o aviso já vem neste ano". O quadro desolador no mercado de trabalho atingiu fortemente o setor textil e automotivo. No Rio Grande do Sul, a indústria calçadista enfrenta a sua terceira mega-crise em dez anos. Em apenas dois dias, dois dos maiores grupos calçadistas gaúchos fecharam fábricas no Estado. A empresa de calçados Dakota irá fechar no início de dezembro sua unidade produtiva em Bom Retiro do Sul, no Vale do Taquari (RS). Atualmente, 320 sapateiros trabalham na fábrica, que já chegou a ter mil trabalhadores na década de noventa. A Azaléia, fabricante de calçados adquirida pela Vulcabras, já fechou a sua fábrica localizada no município gaúcho de Portão, no Vale do Rio dos Sinos. A unidade produzia diariamente 2,5 mil pares de tênis da marca Olympikus, um dos produtos mais importantes da Azaléia e que continuará sendo fabricado nas demais unidades da empresa calçadista. A fábrica de Portão contava com 400 funcionários que foram demitidos ou estão sendo parcialmente absorvidos pela matriz, em Parobé. "Vamos tentar absorver o máximo possível de pessoal", disse o presidente da companhia que emprega um total de 35 mil pessoas. Em dois meses, a indústria calçadista demitiu 4,2 mil trabalhadores. Quase 41% das 10,3 mil demissões de 2008 foram feitas entre o final de setembro e novembro. Enio Klein, consultor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), afirma que apesar das demissões, não há motivos para pânico: "A situação está mais difícil, mas não desesperadora. Temos um mercado interno bastante favorável. Mas, se o Brasil não crescer no próximo ano, o consumo de calçados cairá", diz ele. Outro setor que puxou o freio de mão é o automotivo. As montadoras e seus fornecedores vêm dando férias e demitindo. Três das grandes montadoras – General Motors, Fiat e Volkswagen - colocaram, ou já programaram, férias coletivas para mais de 10.600 empregados. Apenas no Paraná, o setor de autopeças deve demitir 5.000 trabalhadores. No pólo industrial de Manaus a situação não é diferente. Mais de 10 mil trabalhadores de 16 empresas do distrito industrial da capital do Amazonas tiveram suas férias coletivas adiantadas. Só o grupo Moto Honda, uma das maiores empresas do pólo industrial de Manaus, é responsável por ter adiantado as férias coletivas de 5 mil trabalhadores. "Essas férias são além das coletivas de fim de ano, que começam próximo do Natal", explica o secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos do Amazonas, João Brandão. Segundo Brandão, as empresas que já teriam anunciado ou começado as férias coletivas de 15 a 20 dias são: Moto Honda, Honda Lock, Honda Componentes, Yamaha, Elgin, Adenso, Federal Mogul, Keyhim, MCB, Mitsuba, Moustashi, Nippon, Nissin, Shwa e Sodesia. A situação não é pior em função de que o comércio não começou a dispensar seus funcionários - o que seria altamente dramático porque os meses de novembro e dezembro são considerados os melhores em termos de faturamento para o setor varejista dado o aumento do consumo por conta das festas de fim de ano. Segundo o Ministério do Trabalho, no que se refere ao emprego, o comércio foi o setor mais dinâmico de outubro, quando criou 54.590 vagas - número um pouco inferior às 63 mil vagas abertas no segmento no mesmo mês do ano passado. O fato é que os dados sobre emprego são um sinal de alerta sobre crise. O saldo entre admissões e demissões vem encurtando. O mercado de trabalho já começou a fazer vítimas e as perspectivas são de uma piora considerável para 2009. Sociedade ainda não percebeu a dramaticidade da crise As notícias sobre o desaquecimento do mercado de trabalho são diárias e evidenciam o impacto da forte crise mundial sobre o país. Surpreende que mesmo assim, muitos não tenham se dado conta da gravidade da crise. Segundo o economista Fernando Ferrari Filho, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em entrevista concedida à revista IHU On-Line, "a sociedade brasileira ainda não percebeu a dramaticidade da crise". De acordo com ele, "a sociedade brasileira ainda não percebeu a dramaticidade da crise, seja porque nos encontramos no último trimestre do ano, período sazonalmente próspero para a economia, seja porque o governo insiste em dizer que o país não será afetado substancialmente". O professor da UFRGS destaca que "os efeitos sobre os níveis de emprego, massa salarial e inflação serão observados em 2009 e 2010. Em suma, a sociedade aprenderá com a crise e se posicionará frente a ela em um futuro próximo". Na análise do economista, "havendo um desaquecimento da economia brasileira nos próximos anos, a conseqüência natural é um aumento das taxas de desemprego. Desemprego maior, menor massa salarial e restrição de crédito resultam em menor nível de consumo. Menos consumo, por sua vez, afeta negativamente o investimento e, por conseguinte, passamos a ter um ciclo vicioso". Para ele, "os problemas sociais tendem a recrudescer, principalmente se o governo resolver reduzir os gastos públicos, o que reiteradamente ocorre quando há crises externas". A análise de Fernando Ferrari é corroborada pelo economista José Luis Oreiro da Universidade de Brasília. Em entrevista ao IHU, o professor comenta que "podemos esperar um 2009 crítico em relação à economia mundial, em especial à brasileira". Segundo o professor, "existem dois tipos de problemas que iremos enfrentar em função dessa crise: um de curto prazo e outro de médio prazo. O de curto prazo é o seguinte: se o problema do crédito não for resolvido, haverá, ainda este ano, uma forte desaceleração do nível de atividade, ou seja, a produção industrial irá despencar. Há alguns setores em que aparentemente isso já está acontecendo. A situação do travamento de crédito é grave e precisa ser enfrentada com agilidade por parte do governo. Supondo que o governo consiga resolver esse problema de tal maneira que em janeiro de 2009 os financiamentos voltem às condições normais, teremos um segundo problema a médio prazo, o qual está relacionado ao déficit em conta corrente". Na análise de Oreiro, "em 2009 haverá uma redução bastante significativa do comércio mundial em função da recessão nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Em função disso, o preço das commodities no mercado irá despencar, e o Brasil sofrerá com a queda das exportações tanto em valor quanto em quantidade. Se formos bem-sucedidos e mantivermos a economia crescendo entre 3,5% e 4%, espera-se que seja possível manter esse panorama; as importações continuarão crescendo a uma baixa razoável. Então, haverá um cenário em 2009 de exportações despencando e importações aumentando. Como conseqüência, teremos uma situação do agravamento do déficit em conta corrente, o que pode chegar, no fim de 2009, a algo como 4% do PIB. Este é um valor muito perigoso, ainda mais quando o cenário internacional no ano que vem será de aversão global ao risco, e será muito difícil para países emergentes como o Brasil conseguir financiamento externo". Luiz Filgueiras, economista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), alerta em entrevista ao IHU que "o governo brasileiro resiste até em assumir que o país está dentro da crise e aí é que está o problema". Segundo ele, "no início, Lula dizia que o Brasil não tinha nada a ver com a crise, que o problema era do Bush. Depois, disseram que a crise atingiria muito levemente. Mais tarde, começaram a tomar algumas medidas. Mesmo agora, o discurso não assume que o Brasil está inserido na crise. Uma hora, Guido Mantega diz que a crise é terrível e, em outro momento, diz que o pior já passou. O governo brasileiro está tão volátil quanto a bolsa de valores", diz ele. Em sua opinião, "se os trabalhadores não se mobilizarem, a resposta da crise será dada só pelos 'de cima'. Os 'de baixo' ficarão desamparados, serão as vítimas do desemprego", afirma. Publicamente o governo mantém um discurso otimista, mas a tensão é grande nos bastidores do governo. Em reunião ministerial realizada essa semana na Granja do Torto, o presidente Lula afirmou que a prioridade do governo deixou de ser a inflação e passou a ser o crescimento da economia - numa inflexão importante na equipe econômica e assumida para os ministros pela primeira vez. A fala de Lula foi entendida como um recado explícito do presidente ao Banco Central, Henrique Meirelles, de que deseja queda dos juros básicos (taxa Selic), hoje em 13,75% ao ano. Para enfrentar a crise e estimular o consumo, o governo prepara até mesmo uma campanha institucional. Com o slogan "O mundo confia no Brasil e o Brasil confia nos brasileiros", será lançada em 10 de dezembro uma campanha "antipânico" à crise. A crise e o movimento social Quem também tem reagido lentamente é o movimento social. Após vários meses do estouro da crise, apenas agora o movimento social vai se dando conta da gravidade da mesma. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), percebendo os indicadores declinantes do emprego, vem pautando o tema no topo de sua agenda e recentemente apresentou, junto com as demais centrais, propostas ao governo. As centrais propõem que os recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) sejam aplicados em projetos e obras que gerem empregos. O ministério do Trabalho aceitou ainda encaminhar ao Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat) a proposta de elevar o número de parcelas do seguro-desemprego, encampando pedido das centrais sindicais. A crise também será tema de uma reunião entre o presidente Lula e os movimentos sociais programada ainda para esse mês. Sobre o convite do presidente para uma conversa com os movimentos sociais sobre a crise mundial, João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), disse: "Aproveito para mandar um recado: espero que a reunião não seja brincadeirinha para ele dar discurso para dirigentes de movimentos sociais, nós queremos uma reunião que seja um diálogo e que os movimentos possam dizer ao governo quais são as medidas que nós esperamos para sair dessa crise". Segundo Stédile, "o governo tem que tomar medidas práticas para proteger o povo brasileiro da crise, infelizmente até agora não vimos nenhuma medida concreta dirigida para os pequenos agricultores. Ao contrário, os pequenos estão começando a pagar a crise. E muito menos (vimos medidas) para o povo em geral". Para o coordenador do MST, o governo federal está cometendo um "erro sério ao correr atrás do prejuízo e ficar setorizando a ajuda". Segundo ele, por enquanto o Estado foi revigorado não para ajudar o povo, "mas em benefício de salvar o patrimônio daqueles capitalistas que estavam especulando". "O que o Brasil precisa é tomar medidas de mudança de política econômica, precisa aproveitar a crise para sair do neoliberalismo e remontar um outro projeto de desenvolvimento nacional para o País", afirmou. Numa reunião com os movimentos sociais do Paraná, realizada nesse final de semana, no Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (CEPAT), João Pedro Stédile destacou que os movimentos sociais precisam organizar manifestações de rua e se mobilizar para exigir do governo medidas que preservem os empregos e fez uma analogia entre o futebol, a crise do mercado financeiro internacional e a ação dos movimentos sociais: "Quando há crise no modelo capitalista é o momento das massas se mobilizarem para não pagar a conta, preservar os empregos e avançar nas lutas, pois o nosso adversário de classe está mais enfraquecido. É como no futebol. Os times que estão mais fortes têm que ir pra cima dos que estão na parte de baixo da tabela e impor goleadas, isso se quiserem conquistar o título. De modo geral, quando existe crise no capital, a tendência é que as massas se levantem. Cabe a nós, dirigentes, estimularmos o reascenço do movimento popular a fim de unir forças e disputar o projeto de classes". O tema da crise mundial estará no centro dos debates da próxima edição do Fórum Social Mundial (FSM) que será realizado em Belém (PA) de 22 de janeiro a 01 de fevereiro de 2009. É bastante provável que um dos indicativos do Fórum seja a definição do dia 15 de março de 2009 como o dia mundial de mobilizações contra o capitalismo como destaca nota da Attac. América Latina Luz amarela para Chávez As eleições regionais - estavam em disputa 23 governos, 328 prefeituras, além de 233 cadeiras em legislativos regionais -, realizadas no domingo, dia 24 de novembro, na Venezuela revelam num primeiro olhar uma expressiva vitória do governo Chávez, que ganhou a disputa em pelo menos 18 dos 23 Estados. Ainda mais: nessas eleições, 5,6 milhões de eleitores votaram nos candidatos do Partido Socialista Unidos pela Venezuela (PSUV), enquanto que em dezembro de 2007, no referendo para aprovar a reforma constitucional proposta por Chávez, o governo recebeu 4,4 milhões de votos. O mapa da Venezuela ainda é "vermelho, vermelhinho", disse Chávez ao comemorar sua aparente vitória no domingo. Entretanto, as coisas não sem bem assim. O chavismo perdeu as eleições em grandes e importantes colégios eleitorais como a capital Caracas e as capitais Maracaibo - a segunda cidade do país (no estado de Zulia), e Sucre (estado de Miranda). Em Sucre, a derrota tem um caráter simbólico importante, na região fica localizada Petare, uma imensa favela, onde residem milhares de pobres e um dos focos da resistência popular ao golpe de 2002 e tido até então como reduto chavista. Resumindo, Chávez ganhou mais Estados, mas a oposição ganhou no chamado "corredor eleitoral", a zona norte costeira do país, na qual se encontra a maior parte da população e a parcela mais significativa do PIB venezuelano. Entre os estados que se situam nessa região se encontra Zulia, no qual se encontra o estratégico lago Maracaibo, responsável por quase 80% da produção petroleira nacional. O estado já governado por Manuel Rosales há dois mandatos, permanece com a oposição. Destaque-se que Rosales, principal opositor de Chávez, disputou as eleições presidenciais em 2006 na qual foi derrotado por 62% a 36%. Outro resultado constrangedor para Chávez foi a apertada vitória em Barinas, terra natal da família Chávez que vinha sendo governada há dez anos por seu pai. Nessas eleições, o irmão de Chávez, Adán Chávez ganhou as eleições por uma diferença de apenas 5%. O resultado oferece razões para que ambos os lados comemorarem, entretanto a oposição pode se considerar mais vitoriosa. Antes hegemônico, o chavismo praticamente desapareceu nas regiões populosas e cosmopolitas do país. Sua maior força política está agora nos Estados pequenos e rurais, onde a mídia privada quase não entra, e a economia é menos diversificada e mais estatizada, destaca Fabiano Maisonnave. Segundo o jornalista, "a derrota nos grandes centros, a chegada ao poder do popular Barack Obama no lugar do 'arquiinimigo' George W. Bush e a queda brusca do preço do barril de petróleo anunciam um 2009 difícil para Chávez, cuja estratégia tem sido misturar um discurso maniqueísta entre bons e maus, ricos e pobres, a um aumento generalizado do gasto público". Em sua opinião, "o discurso e os bolsos esvaziados, ficou mais longe o sonho de relançar outro referendo para aprovar a reeleição presidencial indefinida - já derrotada no ano passado". A luz amarela ascendeu para Chávez, comenta Gilberto Maringoni. Segundo ele, "após dez anos e 14 eleições, o governo ainda exibe uma surpreendente margem de aprovação, no entanto, tais resultados numéricos não podem esconder debilidades sérias no processo político venezuelano". Maringoni destaca que "Chávez, mais uma vez, apostou na tática eleitoral que lhe garantiu doze vitórias entre 1998 e 2006: transformar as eleições em um plebiscito entre seu governo e a oposição golpista, segundo suas palavras. Assim, qualquer vitória reveste-se de características com repercussões nacionais e até mesmo internacionais. E qualquer derrota significa colocar em questão todo o processo que lidera". Segundo Maringoni, "o governo segue com o apoio da maioria da população, mas a situação do país apresenta várias nuances". Para ele, "insistir na linha plebiscitária é algo que não leva em conta o surgimento, em 2007, de uma direita não golpista (porque a tática mostrou-se ineficiente)". O jornalista e historiador aponta outro problema, destacado anteriormente: "A partir de 2009, os Estados Unidos não terão, pelo menos na aparência, um falcão da direita, como George W. Bush na Casa Branca. Barack Obama encarna uma espécie de 'imperialismo cordial', diante do qual a luta política deverá ser mais sofisticada". Porém, a maior derrota para Chávez foi o fato de que não necessariamente os mais pobres continuam votando em seus candidatos. Segundo, Luis Vicente León, diretor do Instituto de Pesquisas Datanálise, "a vitória de Ocariz [Sucre, localidade em que fica Petare, um dos maiores e mais violentos complexos de favelas da América Latina] derrubou dois mitos. Primeiro, que só Chávez pode vencer em bairros pobres e, segundo, que a disputa política na Venezuela é apenas uma luta de classes entre pobres, que apoiariam a revolução, e ricos, que são oposição". Na realidade, "pouca gente escolheu entre socialismo e capitalismo", comenta a jornalista Raquel Landim. Segundo ela, Chávez "esforçou-se para transformar as eleições regionais em um plebiscito sobre o seu governo. Conseguiu, mas acabou castigado pela má qualidade de sua gestão e das administrações de seus aliados. Os eleitores das grandes cidades do país culparam Chávez pelo aumento da criminalidade, pelo desabastecimento de produtos alimentícios, pelo tráfego caótico, pela sujeira nas ruas e pela inflação". A Venezuela sai da eleição ainda mais polarizada do que entrou. Equador não está disposto a pagar dívida 'ilegítima, ilegal e corrupta' "Finalmente, o país sabe que o endividamento externo foi um assalto milionário", disse na semana passada Hugo Arias, coordenador da Comissão para a Auditoria da Dívida Externa do Equador. "Só para ter uma idéia, cabe assinalar que enquanto o país recebeu créditos de 80 bilhões de dólares, até o momento já pagou mais de 127 bilhões de dólares e ainda nos restam 17 bilhões de dólares a serem pagos", emendou Arias. Antes mesmo de tomar posse, em janeiro de 2007, Correa já havia adiantado sua intenção de renegociar a dívida externa de seu país. A criação da Comissão para a Auditoria Integral do Crédito Público (CAIC) foi uma de suas primeiras medidas como presidente. Passados três meses de seu governo, o presidente Correa disse que o seu governo não pagará a dívida externa que considere ilegítima e reduzirá substancialmente o pagamento anual. Rafael Correa já disse mais de uma vez que poderá renegociar a dívida multilateral (com organismos), bilateral (com países) e comercial (com os investidores). Em dezembro de 2006, ainda antes de sua posse, sem dar muitos detalhes, afirmou: "Com esse nível de dívida, nós não podemos levar o país para frente", indicou Correa em dezembro. "Um país que gasta o dobro com a dívida externa do que gasta com educação não pode se desenvolver." Até novembro o país tinha gasto 5,4% do Produto Interno Bruto em juros e amortizações. Como em toda a América Latina, a dívida significou uma constante sangria de divisas e empecilhos para o desenvolvimento. A Comissão destaca que houve diversas irregularidades envolvendo a dívida externa do Equador. "Houve assentos duplos, pagamento de dívidas vencidas (diziam que deviam ser pagas do mesmo jeito para não perturbar as negociações), estatização de dívidas privadas, como na Argentina em 1982, e renúncia explícita para defender interesses nacionais: há contratos que não seriam válidos em nenhum país, menos ainda nos Estados Unidos", disse o argentino Espeche Gil, um dos integrantes da Comissão. Além de Gil, há outros três argentinos na Comissão. Eric Toussaint, do Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, outro membro da Comissão, declarou: "Não apenas a dos bônus: a dívida com organismos como o Banco Mundial é ilegal. Correa poderia declarar em ato soberano a nulidade da dívida ou ajuizá-la e pedir que uma corte a investigue. Há mais de 50 ex-funcionários responsáveis". O próprio Correa, ao receber na semana passada o relatório da Comissão da Auditoria, disse que irá procurar "não apenas sancionar os culpados, mas também não pagar a dívida ilegítima, ilegal e corrupta". O relatório é "contundente" e lhe permitirá tomar decisões "no futuro", assinalou. O Brasil é o único país latino-americano para quem o Equador deve, segundo o Banco Central equatoriano. São cerca de US$ 243 milhões emprestados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Com a auditoria concluída, o governo de Correa questiona parte da dívida e não descartou recorrer à Corte Internacional de Arbitragem para a suspensão do pagamento da dívida, inclusive aquela contraída junto ao BNDES. O empréstimo foi concedido pelo banco para a construção da hidrelétrica San Francisco, obra da brasileira Odebrecht contratada pelo governo equatoriano e paralisada no primeiro ano de operação devido a problemas estruturais. Irritado com o impasse nas negociações sobre a responsabilidade dos problemas na usina, Correa rescindiu os quatro contratos da empresa em execução no país, alegando irregularidades. O governo brasileiro ficou profundamente irritado com a atitude tomada por Correa de recorrer à Corte Internacional de Arbitragem. Não tanto pelo conteúdo - o não pagamento -, mas mais pela forma como foi feita a operação - sem consulta prévia ao Governo brasileiro. No fundo, a reação de irritação por parte do governo brasileiro foi aguardada, instigada e aplaudida, quando aconteceu, pela burguesia nacional, que nunca aceitou os gestos mais dialogantes da diplomacia brasileira. Pelo contrário, empresários e políticos brasileiros da oposição, sobretudo, sempre acharam que o governo deveria ter um tratamento mais enérgico e recalcitrante para com os governos de países da América do Sul, incluindo especialmente os da Bolívia e do Equador. Até esse momento, a linha mais cortês se havia imposto; mas, se a relação com o Equador indicar uma tendência, isso poderá mudar. A comprovação está em que o governo brasileiro, primeiro, chamou de volta o embaixador brasileiro no Equador, Antonino Marques Porto, em seguida resolveu paralisar projetos com o Equador. Os projetos de cooperação nas áreas de saúde, educação, meio ambiente e energia serão paralisados, segundo fontes do governo. Além disso, o Brasil vai rever toda a relação diplomática com os equatorianos. Para restabelecer a normalidade, o país espera um gesto de boa vontade do Equador. Por enquanto, seu presidente, Rafael Correa, mantém-se inflexível. Não bastasse, o governo brasileiro suspendeu a autorização para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) financie a venda de 24 aviões Supertucanos à Força Aérea do Equador, um negócio de US$ 261 milhões. A medida é uma retaliação ao calote no BNDES anunciado por Correa. O caso tem um precedente: a expulsão da Odebrecht do Equador, em setembro passado, devido a falhas técnicas apresentadas pela hidrelétrica San Francisco, tocada pela empreiteira brasileira. "Esses senhores (da empresa brasileira) foram corruptos e corruptores. O que está sendo feito é um assalto ao país", disse o presidente Correa na época. Conjuntura da Semana em frases Crise "O problema não é falta de dinheiro, é que as pessoas estão com medo. Na medida em que a gente fala todo dia de crise, as pessoas que estão trabalhando vão ficando com medo de perder o emprego. Por conta do medo de perder o emprego, as pessoas não fazem compras, não fazendo compras, o que pode acontecer? O desemprego de que elas tanto têm medo" - Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República - O Globo, 19-11-2008. "Trabalhamos com o pior cenário para os próximos seis meses" - Luiza Helena Trajano, superintendente da Magazine Luiza - O Estado de S. Paulo, 21-11-2008. "O presidente Lula não pede esse tipo de coisa. Mas o pessoal do BC lê jornal" - Paulo Bernardo, ministro do Planejamento, sobre a queda da taxa de juros, Folha de S.Paulo, 23-11-2008. "O mundo confia no Brasil e o Brasil confia nos brasileiros" - slogan que será lançada em 10 de dezembro uma campanha "antipânico" de rádio, TV, jornal e internet estimulando o consumo, Folha de S.Paulo, 25-11-2008. "A crise financeira entrou em sua fase aguda no início de setembro. Foram necessários mais de 60 dias para as seis centrais produzirem o seu "documento unitário", como foi batizado, e enviá-lo a Lula" - Fernando Rodrigues, jornalista - Folha de S. Paulo, 19-11-2008. "O governo tem instrumentos monetários e fiscais para impedir a recaída na estagnação ou na recessão. Se cabe utilizá-los ou não, e em que medida, são questões a ser avaliadas de forma pragmática, à luz das informações sobre a tendência do nível de atividade. Não é hora de se deixar dominar por escrúpulos ortodoxos" - Paulo Nogueira Batista Jr., economista - Folha de S. Paulo, 20-11-2008. Política "Aécio e Serra têm iguais condições de serem candidatos do PSDB em 2010. Mas os dois têm estilos políticos diferentes. Aécio disputa o lugar com florete e Serra, com machado" - Delfim Netto, numa roda de amigos... em Paris - O Globo, 21-11-2008. "Já acertamos que não haverá prévia. Prefiro que o Olívio (Dutra) seja candidato a governador. Derrotei Olívio na prévia e perdi a eleição de 2002. Tenho de ter humildade" - Tarso Genro, ministro da Justiça - Zero Hora, 21-11-2008. "Esse século 21 é o século dos negros, das mulheres, e acho que isso vai ser muito bom para o mundo" - Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, lançada publicamente por Lula como candidata à presidente, Folha de S.Paulo, 22-11-2003. América Latina "Não deixa de ser uma ironia que o presidente que não brigou com Bush, teoricamente seu antípoda ideológico, entre em conflito justamente com um mandatário com o qual tem afinidades ideológicas" - Clóvis Rossi, jornalista, sobre a crise com o Equador, Folha de S.Paulo, 22-11-2003. "Se quiserem apelar para mentiras, apelem" - Hugo Chávez, presidente da Venezuela, ao discordar que a oposição possa considerar o desempenho como um triunfo, BBC Brasil, 24-11-2008. "A vitória de Ocariz derrubou dois mitos. Primeiro, que só Chávez pode vencer em bairros pobres. Depois, que a disputa política na Venezuela é apenas uma luta de classes entre pobres, que apoiariam a revolução, e ricos, que são oposição" – Luis Vicente León, diretor do Instituto de Pesquisas Datanálise, sobre a vitória de Carlos Ocariz em Sucre, localidade em que fica Petare, um dos maiores e mais violentos complexos de favelas da América Latina, O Estado de S.Paulo, 25-11-08. "Não sou um messias nem Batman" - Fernando Lugo, presidente do Paraguai, avaliando os cem dias de governo, O Estado de S.Paulo, 25-11-08. Clima "Poucos desafios que se colocam diante da América - e do mundo- são mais urgentes do que combater a mudança climática. A ciência é incontroversa e os fatos são claros" -Barack Obama, presidente eleito dos EUA - Folha de S. Paulo, 19-11-2008. "No mundo real, Obama prioriza uma das indústrias mais tradicionais e indutoras de poluição. Se não souber usar a crise do setor automotivo para arrancar dele uma reviravolta na direção de carros mais avançados e econômicos, como os híbridos, emitirá para os EUA e para o mundo sinais contrários aos de seu discurso" - editorial da Folha de S.Paulo, 24-11-2008. TAM "A TAM não tem filme brasileiro na programação de suas linhas para a Europa. Para ver um longa nacional, temos de viajar por empresas estrangeiras" - Lúcia Murat, diretora de cinema - O Globo, 20-11-2008. |
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