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| Análise da crise Brasileira |
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A crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja,devolve à esquerda o sujeito histórico que ele acreditava ter seesfarelado na história? Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira;tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiroscentrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização docapital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devidoà centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise nãofloresce exatamente num ponto geográfico; à rigor, se formoslocalizá-la seria na incorporação da mais-valia gerada na China e naÍndia nos últimos vinte anos; novidade esta que influenciou oconjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso;uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é suamanifestação mais evidente, mas não a sua essência. A essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial? A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela;ou seja a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial.Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou aoferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando afronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansãoequivalente da capacidade de realizá-la. Por quê? Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde seexpande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e da Índia,principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliadaà tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica derealização do valor, amplificada; uma crise da globalizaçãocapitalista. O colapso das hipotecas nos EUA é a manifestação disso.De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumonorte-americano; propiciou também sobras de capital na periferiapara financiar o Tesouro dos EUA. A China sozinha tem mais de US$ 1trilhão aplicado em papéis do governo Bush. De onde saiu essedinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valiaextraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo dereprodução da mão-de-obra local é baixíssimo. Mas a crise não marca o esgotamento dessa endogamia China/EUA? Ela funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque éproveitosa aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela omundo do trabalho urbi e orbe; os assalariados norte-americanossimplesmente não têm fonte de renda para o padrão de consumo queainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagenscoletivas, dentro dos seus carros. Obama teria que elevarbrutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise.Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicaçõesdesse processo devem ser estudadas cuidadosamente; estamos diante dealgo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo quepersistirá para além dela e condicionará todos os passos da histórianeste século (NR – Carta Maior levantou alguns dados que reforçam as preocupaçõesde Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista daprodução chinesa, indiana e de países da antiga União Soviéticacolocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacionaldireta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentaistornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão deoperários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões detrabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveispela maior parcela da produção global até recentemente, estão sendodesalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativasno mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia. A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho deUS$ 0,60, contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21 nos EUA ecerca de US$ 4,50 no Brasil .Resultado: dados compilados pelaComissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinadaatualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro anocom dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelosdetentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos atéo colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não pára de crescer–desde 2001, cresceu 15% nos EUA e saltou em média 8% a 10% ao anona China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses nototal de bens importados pela AL cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmoperíodo, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3%para 6,5%). O que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crisea partir de sua manifestação financeira não basta ? É isso. A contribuição de Chesnais à compreensão da dinâmicacapitalista foi importante num outro momento porque os marxistassempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas ainterpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise derealização do valor. 1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu.... Uma crise de realização do valor circunscrita ao território daseconomias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt; e uma Guerramundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma agravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise daglobalização à 29; o ferramental dos anos 30 não dá conta disso. O receituário keynesiano? As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podiaconter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de umdinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrerdéficits em conta corrente e harmonizar desequilíbrios comerciaisetc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é odinheiro único que o instrumenal keynesiano necessitaria para tereficácia atualmente. Estamos diante de um longo processo de solavancos e limbo semredenção... Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças evai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas nãotenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é ofim da associação China/EUA; de algum modo ela prosseguirá porque éproveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói,ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.
Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entreoutros? |
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